Europa em GramadoGUIA CURADO
CULTURA · SERRA GAÚCHA

Bah Tchê

Antes de ser destino, a Serra foi pouso de tropeiro, terra de imigrante e mesa farta de colono. Aqui está de onde vem esse jeito — e onde vivê-lo.2,3,4,5,20

De onde vem a Serra

Muito antes de tropeiros e colonos, o planalto do Sul foi casa de grupos proto-Jê, ancestrais dos Kaingang e dos Xokleng, que ergueram casas subterrâneas — as mais antigas, de cerca de 300 a.C. No Rio Grande do Sul, dezenas desses sítios foram escavados nos Campos de Cima da Serra.1

Quando os primeiros colonizadores chegaram, a região era habitada por povos originários — um estudo sobre a formação de Gramado registra Kaingang e Guarani por aqui.2

No século XVIII, o planalto virou caminho de tropeiros, que levavam gado e mulas do Sul às feiras do Sudeste. Gramado guarda essa memória no nome: um campo plano de grama, cercado de árvores e nascentes, onde tropeiros e viajantes paravam para descansar.2,3

Depois vieram os imigrantes. Os de língua alemã chegaram ao Rio Grande do Sul em 1824, por São Leopoldo; os italianos ocuparam as colônias da Serra a partir da década de 1870 e formaram o grupo mais numeroso de colonos do estado. Em Gramado e Canela, as duas correntes se encontraram.3,4,5,6

O trem chegou a Gramado em 1919 e trouxe mais visitantes. Depois da Primeira Guerra, uma nova leva de imigrantes germânicos chegou à cidade — professores, médicos, músicos, pintores — e abriu parques e lagos, espalhou jardins e flores, estimulou passeios às cascatas e inaugurou o tempo das casas de veraneio.2

Em 1958 veio a primeira Festa das Hortênsias, apontada por pesquisadores como o primeiro marco da divulgação turística de Gramado — e como o caminho que levou ao Festival de Cinema, que estreou em 1973 junto com o troféu Kikito. Na 40ª edição, o Natal Luz foi reconhecido pelo Guinness como o maior evento aberto de Natal do mundo em extensão de tempo.7,8,9

O jeito daqui

Prove o chimarrão: desde 2003, ele é por lei a bebida símbolo do Rio Grande do Sul. A erva-mate é nativa da América do Sul subtropical, e quem a bebeu primeiro foram os povos indígenas.10,11

Fique de ouvido atento. "Tchê", para chamar alguém ou mostrar espanto, vem do "che" do espanhol platense; "guri", para menino, tem origem tupi. Já o "bah" — surpresa ou admiração, conforme a entonação — tem origem que nem o dicionário arrisca: está registrada como duvidosa.15,16,17

Na Serra de colonização italiana, a mesma das vinícolas, fala-se também o Talian, nascido de variedades do Vêneto e reconhecido como Referência Cultural Brasileira. E nas antigas colônias alemãs ainda se ouve o Hunsrückisch, trazido a partir de 1824 e hoje inventariado por pesquisadores.5,18,19

Quem vem em setembro chega no mês da data magna do Rio Grande do Sul: o dia 20, início da Revolução Farroupilha e feriado estadual — e a Semana Farroupilha nasceu da Ronda Crioula. O primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35 CTG, foi fundado em Porto Alegre em 1948, e hoje os CTGs são patrimônio cultural imaterial do estado.12,13,14

Na Serra, a herança dos imigrantes também virou festa. Em Gramado, língua, culinária e tradições de alemães e italianos convergem na Festa da Colônia, realizada pela primeira vez em 1985; em Canela, os Kerbs, festas de origem alemã, já estavam no calendário em 1968. Vale conferir a agenda antes de marcar as datas.2,6

À mesa

Os imigrantes italianos trouxeram à Serra o vinho e a "mesa farta", que por aqui virou sinônimo de bem viver. A comida da colônia, vista no começo como comida pobre, hoje é um dos motivos da viagem.20

O galeto, franguinho assado como os italianos ensinaram, chega à mesa com polenta e radicci em salada — o almoço colonial dos relatos de imigrantes.20

No café colonial, a fartura da colônia vem toda de uma vez: pães, roscas de polvilho, cuca, queijo, linguiça, nata, requeijão, mel. Vá com fome e sem pressa.21

A cuca merece parágrafo próprio: receitas de herança germânica, passadas de geração em geração e adaptadas aos ingredientes daqui e às trocas com indígenas, portugueses e outros imigrantes — não existe receita padrão. O modo de fazer cuca artesanal passou por análise do IPHAE para registro como patrimônio imaterial do estado.13

O fondue veio de longe — a receita mais antiga de que se tem registro, segundo a swissinfo, está num livro de cozinha de Zurique de 1699 —, mas a panela no centro da mesa virou parte de Gramado: as casas de fondue estão entre os elementos da identidade turística pela qual a cidade é conhecida, ao lado dos chalés e do enxaimel.2,22

Na taça, a mesma herança: hoje a Serra é o maior polo vitivinícola do país, e em 2022 o Rio Grande do Sul respondia por mais de 90% dos espumantes brasileiros. No Vale dos Vinhedos, primeira Indicação Geográfica do Brasil, e em Altos de Pinto Bandeira, com Denominação de Origem só para espumante, cada brinde tem endereço certo.20,23,24,25

Receber bem

Em Gramado, receber bem também se aprende na escola. Em 1988, a rede municipal criou a disciplina Educação para o Turismo; desde 2023, Turismo e Hospitalidade atravessam o currículo como temas obrigatórios.7

A pesquisa sobre esse currículo lembra que hospitalidade não é traço de nascença: é algo que a cidade escolheu cultivar, com política pública.7

Um estudo sobre a formação de Gramado liga essa vocação ao pouso dos tropeiros e conta que, em 1918, uma antiga pensão virou o primeiro hotel da cidade. Em Canela, em 1968, o Dia da Hortênsia já reunia escolas, poder público e moradores na recepção ao visitante.2,6

Fontes

Onde as referências divergem — como nas datas da imigração italiana —, preferimos não cravar o que ainda se discute.

  1. Revista Pesquisa FAPESP, ed. 252 (fev. 2017): Agricultores e sedentários — casas subterrâneas dos proto-Jê
  2. Gevehr, D. L.; Weber, E. S. Dos tropeiros e fiscais aos empresários, vereadores e prefeitos: relações históricas entre economia e política (Gramado, RS). Estudios Históricos, n. 31, jul. 2024
  3. IBGE — Biblioteca: Gramado (RS), Histórico e Formação Administrativa
  4. Governo do Estado do RS — Bicentenário da Imigração Alemã fortalece laços culturais e institucionais (25/07/2024)
  5. Rech, G. L.; Luchese, T. Â.; Herédia, V. B. M. Os italianos: imigração e colonização (Universidade de Caxias do Sul)
  6. IBGE — Coleção de Monografias nº 471: Canela, Rio Grande do Sul (dados de 1968)
  7. Barbacovi, M.; Simões, R. L. Educação, turismo, hospitalidade: intersecções e reflexos pedagógicos sobre a comunidade gramadense. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais (FURG), v. 17, n. 34, 2025
  8. Festival de Cinema de Gramado — O Festival (site oficial)
  9. Secretaria de Turismo do RS — Giro do turismo: eventos de Natal são destaque em todo o RS (22/12/2025)
  10. Lei Estadual nº 11.929, de 20 de junho de 2003 (Lei do Churrasco e Chimarrão) — texto publicado pelo MTG
  11. Landau, E. C.; Silva, G. A.; Torres, T. Evolução da Produção de Erva-mate (Embrapa, cap. 22)
  12. Prefeitura de Porto Alegre — Prefeitura declara luto oficial pelo falecimento de Paixão Côrtes (27/08/2018)
  13. IPHAE/Sedac-RS — Parecer Técnico nº 011/2024: Modo de Fazer Cuca (Rolante) para Registro como Patrimônio Cultural Imaterial (29/11/2024)
  14. Secretaria da Cultura do RS — Festejos Farroupilhas 2026
  15. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — verbete "tchê"
  16. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — verbete "bah"
  17. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — verbete "guri"
  18. IPHAN — Livro reúne ações e projetos de 41 cidades gaúchas para preservar a língua Talian
  19. UFRGS — Projeto ALMA-H: Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração
  20. Pertile, K.; Gastal, S. Turismo e gastronomia: as vozes italianas e a culinária de imigração (Universidade de Caxias do Sul, Seminário de Pesquisa em Turismo)
  21. Jornal do Comércio (Porto Alegre) — Morro Reuter promove Café da Colônia neste fim de semana (jul. 2022)
  22. SWI swissinfo.ch — Fondue, or how to agree to disagree (15/08/2026)
  23. Protas, J. F. S.; Lazzarotto, J. J.; Machado, C. A. E. Panorama da vitivinicultura brasileira em 2022. Comunicado Técnico 233, Embrapa Uva e Vinho, set. 2024
  24. Embrapa Uva e Vinho — Indicações Geográficas de Vinhos do Brasil
  25. Embrapa Uva e Vinho — DO Altos de Pinto Bandeira

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